MOSTRA FLORESTA, COM AMAZÔNIA EM DESTAQUE, ABRE HOJE PROGRAMAÇÃO DO PLANETA.DOC FESTIVAL EM FLORIPA

MOSTRA FLORESTA, COM AMAZÔNIA EM DESTAQUE, ABRE HOJE PROGRAMAÇÃO DO PLANETA.DOC FESTIVAL EM FLORIPA

Depois das apresentações de cases e Film Commissions, dos pitchings de projetos com representantes de importantes canais de televisão, dos filmes em realidade virtual e de 40 TED-talks na construção de um diálogo entre sustentabilidade, educação e audiovisual – através do I Fórum Audiovisual de Natureza e do IV Planeta.doc Conferência, nos dois últimos dias – o Planeta.doc Festival abre hoje o seu circuito de exibição de filmes nacionais e internacionais.  De 24 de outubro a 15 de dezembro são seis mostras temáticas que ocuparão diversos espaços culturais de Florianópolis, levando gratuitamente à população obras que emocionam, causam reflexão e ampliam a discussão socioambiental em busca de respostas que interessam a toda a humanidade. 

A primeira leva de filmes será a Mostra Florestas, toda ela na sala de cinema do Centro Integrado de Cultura (CIC), sempre no horário das 20 horas. Serão 16 filmes, instigantes, premiados e aplaudidos em suas trajetórias, mas que, em sua maioria, raramente chegam ao circuito comercial de cinema. A quem pertencem os bens comuns da natureza? Quem é o dono dos mares, dos rios, das florestas, dos ventos? Quem são os mais prejudicados quando estes bens comuns são apropriados por uma pequena parte da sociedade? Como construir uma nova forma de viver que mescle e atualize os saberes ancestrais com as conquistas da ciência e tecnologia, que sirvam à humanidade e não destruam o planeta? Essas indagações, contidas no documentário “O Fio da Meada”, de Sílvio Tendler, que está na programação, também perpassam a linha curatorial do Planeta.doc Festival 2019.

O filme que abre o circuito – “À Cura do Rio”, de Mariana Fagundes-  é um documentário sobre uma das maiores tragédias ambientais e humanitárias que enlutou todo o país e impactou a vida de comunidades ribeirinhas, entre as quais as dos povos Krenak, em Minas Gerais: o rompimento da barragem de mineração do “Fundão”, em Mariana, em 5 de novembro de 2015.  Sob o ponto de vista dos Krenak, o documentário mostra um ritual xamânico em que corpo e natureza se unem para um diálogo profético que enxerga a catástrofe, mas também a salvação do Rio Doce. Outro documentário que também estará em cartaz, “Krenak”, aborda a tragédia de Mariana, porém indiretamente. O filme, de Rogério Corrêa, reconstitui a saga deste povo indígena desde a declaração da chamada “guerra justa”, ordenada pelo rei português Dom João VI, em 1808, chegando ao mar de lama que soterrou vidas, terras, sítios históricos, culturais e o rio que antes era doce.

Já o documentário “A Terceira Margem”, dirigido por Fabian Remy, investiga o extraordinário caso de João Kramura, um homem branco raptado por índios quando criança e criado de acordo com os costumes da tribo. João foi descoberto pelos irmãos Villas-Boas durante os primeiros contatos entre os indigenistas e o povo Kaiapó, às margens do Rio Xingu, na década de 1950. Devolvido a seus parentes depois de adulto, não consegue se readaptar à vida fora da tribo e eventualmente retorna à aldeia, onde fica até seu falecimento, em 2005. O filme documenta uma viagem ao Brasil central em busca dos rastros de Kramura feita ao lado de Thini-á, um índio Fulni-ô que deixou sua aldeia aos quinze anos para viver em grandes metrópoles. O filme coloca em cheque a ruptura da cultura indígena diante da invasão branca e a evolução dos conceitos de antropólogos e indigenistas ao longo de 60 anos.

A Amazônia, como não poderia deixar de ser em uma mostra sobre florestas, ocupa o centro da programação. “Xavante: Memória, Cultura e Resistência”, de Gilson Costa, é um documentário que apresenta um dos rituais mais importantes do povo Xavante: a cerimônia Wapté Mnhõnhõ, que marca a passagem dos jovens para a vida adulta, iniciando uma nova e importante fase de suas vidas. Cantos, danças, pinturas corporais e a religiosidade são componentes que simbolizam a preservação da memória e o processo de resistência cultural passado de geração para geração. 

“Sob a Pata do Boi”, dirigido por Márcio Isensee e Sá, joga foco sobre uma das questões mais polêmicas hoje sobre o meio ambiente, internacionalmente: o avanço impactante dos desmatamentos e das queimadas na Amazônia, com a maior floresta tropical do planeta ameaçada em grande parte pela pecuária. O filme mostra que a Amazônia tem hoje 85 milhões de cabeças de gado, três para cada habitante da região. Na década de 1970, quase não havia bois e a floresta estava intacta. Desde então, uma porção equivalente ao tamanho da França desapareceu, da qual 66% virou pastagem. A mudança foi incentivada pelo próprio governo federal, o que motivou a chegada de milhares de fazendeiros de outras partes do país. A pecuária tornou-se bandeira econômica e cultural da Amazônia, levando os ruralistas, poderosos lobbys políticos e econômicos e mesmo uma significativa parcela da sociedade a defendê-la. Em 2009 o jogo começou a virar quando o Ministério Público obrigou os grandes frigoríficos a monitorarem o desmatamento nas fazendas de onde compram gado. Um filme revelador, atual e imperdível.

Outros filmes do festival também abordam a Amazônia, mas com olhares diferenciados, alguns inclusive lúdicos e apropriados às crianças. É o caso das animações “A Formidável Fabriqueta de Sonhos Menina Betina”, “Plantae”, “Pirilampo” e o premiado “Caminho dos Gigantes”. E também dos documentários “Curupira, Bicho do Mato”, “Para’í” e “Osiba Kangamuke – Vamos Lá Criançada”, no qual as crianças da aldeia Kalapalo, do Parque Indígena do Alto Xingu, mostram aspectos curiosos e divertidos de sua rotina, cultura, tradições e a íntima relação que possuem com a natureza. Já “Micromundo em uma Sacada” é um premiado filme colombiano feito com objetiva macro, apresentando imagens fantásticas de um mundo praticamente invisível, onde insetos exóticos parecem seres de outro planeta. Na verdade, são filmes para as crianças de todas as idades.

Mas os assuntos mais polêmicos não poderiam ficar de fora e com certeza irão dar margem a muitos debates após a exibição dos filmes. “Empate”, por exemplo, é um documentário que dá voz aos protagonistas do movimento seringueiro das décadas de 70 e 80, no Estado do Acre, refletindo como este momento histórico ecoa ainda hoje na Amazônia e no resto do mundo. Seu diretor, Sérgio Machado, esteve presente nos dois dias da Conferência e do Fórum, comentando a saga dos seringueiros seguidores de Chico Mendes e também a da produção do seu filme. 

Já citado, “O Fio da Meada”, de Sílvio Tendler, um dos maiores documentaristas do Brasil, mostra a luta de povos tradicionais brasileiros. No filme, caiçaras, quilombolas e indígenas lutam para sobreviver e tentar impedir que suas reservas naturais sejam destruídas pelo processo de invasões, queimadas e desmatamento. O documentário discute as conexões entre a crise ecológica contemporânea, o modelo econômico, as desigualdades sociais e as diversas formas de injustiça ambiental geradas pela exploração das pessoas e do meio ambiente.

A Mostra Floresta fecha com chave de ouro com o filme “A Idade da Água”, do veterano e premiado diretor Orlando Senna, autor do seminal “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1975). Neste documentário Senna revela a cobiça internacional sobre a Amazônia, envolvendo os Estados Unidos e a Europa. A crise hídrica atual – e que só tende a se agravar em todo o planeta – coloca a Amazônia no olho do furacão de uma possível Guerra da Água em um futuro não muito distante. Não basta torcer para que isto não aconteça. É preciso atitude, ação e conscientização, com o cinema e audiovisual cumprindo sua função.

A Mostra Floresta acontece de 24 a 27 de outubro, pega um fôlego e retorna de 15 a 17 de novembro, sempre às 20 horas, no cinema do CIC. Na sequência o Planeta.doc Festival exibirá as Mostras Cidades, Panorama Nacional, Panorama Internacional, Séries de TV e, por último, a Mostra das Crianças, com os subtemas Biodiversidade, Floresta, Alimentos, Água e Cultura, fechando a versão 2019 do festival em 15 de dezembro. O Planeta.doc Film Festival 2019 foi contemplado no Edital Audiovisual Gera Futuro 2018 da Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania e Governo Federal, com investimento do BRDE/FSA/Ancine. A programação completa está disponível no site www.planetadoc.com.br/programação, na página do festival no Facebook e Instagram, podendo também ser acessada pelo no celular através do aplicativo Planetadoc. Escolha um filme, compareça, prestigie e compartilhe. 

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